26/02/2011

Desejos de grávidas são reais

   Os estudiosos ainda não encontraram uma explicação definitiva para os famosos desejos de grávidas. Mas muitas mulheres vêm seus hábitos alimentares transformados ao engravidar (veja como os desejos por sabores específicos se transformam ao longo dos nove meses). “Em geral, o aumento dos hormônios, principalmente a progesterona, gera alterações cerebrais capazes de fazer a mulher sentir desejos estranhos”, explica a ginecologista Rosa Maria Neme, diretora do Centro de Endometriose São Paulo. A deficiência de alguns minerais, como ferro, também pode desencadear estes desejos e fazer a gestante ter vontade de consumir ferro em alimentos ou objetos. Quem nunca ouviu a história clássica de uma prima ou vizinha grávida que queria chupar pregos?    Este instinto natural de proteção fez a gerente de negócios Renata Montenegro de Menezes, prestes a dar à luz, mudar completamente sua alimentação. “Amo feijão e café, mas agora não posso nem sentir o cheiro. Suco só consigo tomar natural, de caixinha ou latinha não descem! Sushis de pepino e kani também foram meu companheiros pela gravidez inteira”, conta a futura mamãe.
   Os desejos e repulsas de Renata não foram fora do normal, daqueles que viram histórias a ser contadas para primas e vizinhas. Já a estudante de pedagogia Renata Weiss não pode dizer o mesmo. Durante a gravidez de sua primeira filha, ela só queria saber de comer uma iguaria rara: quibe embebido em queijinho petit suisse. Daqueles de morango. “Por quatro meses, era só o que eu conseguia comer sem enjoar. Nunca mais comi depois de ter a minha filha, nem nas duas vezes em que fiquei grávida de novo”, diz.
   O desejo de Renata foi realmente esquisito, mas ao menos envolvia alimentos. Durante a gestação, a analista de comunicação Karen Bortolini se deliciou com um pão francês quentinho besuntado de... pasta de dente! “Estava uma delícia. Um combinado perfeito de crocância e refrescância!”, diverte-se. Depois do parto, esta harmonização maluca nunca mais foi degustada. “Não existe explicação para os desejos sob o ponto de vista médico”, afirma o ginecologista Alexandre Pupo Nogueira, do Núcleo de Mastologia do Hospital Sírio Libanês (SP). Embora os desejos de grávidas possam ser realmente os mais loucos possíveis, a história de que o bebê pode nascer parecido com o objeto de desejo não passa de invenção popular. “Se matar o desejo pode fazer mal à mulher, ela deve esperar a vontade passar”, ele aconselha.
   Ao ouvir a avó dizer que a criança nasceria com a boca aberta, a estudante Márcia Prado Passos achou melhor não deixar de matar nenhuma vontade durante a gravidez. Mas seus desejos não foram nada comuns. Eles começaram no sexto mês, com uma vontade irresistível de beber aquele líquido esbranquiçado do arroz em cozimento. Depois, vieram o biscoito recheado picado com purê de batatas, a manga com pamonha e, a mais esquisita de todas, uma esponja de lavar a louça! “Minha avó me deu uma esponja nova, joguei fora a parte verde e comi a amarela. Depois vomitei tudo, mas isso acontecia com qualquer coisa que eu comia”, conta.
   “Ainda se sabe pouco sobre tudo o que acontece com a mulher quando ela fica grávida. Mas estas transformações são influência do físico, do psíquico e da cultura”, enumera a psicóloga Luciana Blumenthal, da clínica Elipse (SP). Como ouvimos, desde pequenas, que mulheres grávidas sentem desejos, é natural ficarmos sugestionadas a sentir o mesmo. “Não é uma invenção, acontece sem percebermos”, ela alerta. Luciana não descarta, em alguns casos, a tentativa – por vezes inconsciente – de chamar a atenção e testar até onde vai a disposição do pai do bebê. “Acho legítimo. Que mulher não quer ser paparicada?”.

Calendário de desejos

    Um estudo conduzido por Valerie Duffy, professora da Universidade de Connecticut, mostrou como o paladar das mulheres grávidas vai se transformando no decorrer dos nove meses. Veja se as conclusões da pesquisadora não soam familiares:
- No segundo e terceiro trimestres, as mulheres costumam preferir sabores azedos. Assim como a vontade de doce, a de azedo ajuda a variar a dieta ao final da gravidez. Isso colabora para o consumo calórico esperado. Cobiçar alimentos azedos também pode explicar a clássica vontade de conservas.
- Com o passar dos meses, grávidas vão sentindo cada vez mais vontade de salgados. Como durante a gestação o volume de sangue vai crescendo progressivamente, o desejo pode estar ligado a uma maior necessidade de sódio.
- Ao longo do primeiro trimestre, a percepção do sabor amargo aumenta. Como muitas plantas e frutas tóxicas têm sabor amargo, esta pode ser uma reação de defesa contra intoxicações durante a fase crítica do desenvolvimento fetal. Curiosamente, a aversão ao amargor diminui até o terceiro trimestre, quando os períodos cruciais de desenvolvimento já acabaram.
Fonte: iG