10/12/2011

Pesquisa com mais de dois mil casais revela o que leva as relações ao fracasso.

Claudia Jordão -ISTO É


Romeu e Julieta não foram os únicos a crer que o amor era capaz de mover montanhas, sobreviver às diferenças e passar incólume pelas adversidades. No auge da paixão, essas sensações são comuns a todos os amantes. Mas esse poderoso sentimento não tem sido suficiente para garantir casamentos bem-sucedidos e duradouros. Com o tempo e a rotina, as divergências vêm à tona e nem sempre os casais estão preparados para lidar com os percalços. É o que revela o estudo "O que o amor tem a ver com isso?", da Universidade Nacional da Austrália, divulgado na semana passada. Durante seis anos, os pesquisadores australianos observaram a rotina de 2.482 casais - casados de papel passado ou que moravam juntos. Descobriram qual o perfil de relação com maiores perspectivas de sucesso, as de maior probabilidade de fracasso e elencaram uma série de variáveis que sabotam as relações.
Mais da metade dos casais monitorados terminou a relação durante o período da pesquisa. Em geral, homens e mulheres de baixa renda e casais em que o marido está desempregado são os modelos de casamento que mais fracassam. "Isso ocorre por causa do alto nível de stress", analisa a cientista social Rebecca Kippen, técnica do Instituto de Pesquisa Social e Demográfica da Austrália. "Na ponta inversa, casais da mesma idade e com projeto de família semelhante, que pode ou não incluir filhos, têm mais chance de manter o casamento."

O TEMPO E A RELAÇÃO

MATURIDADE
A taxa de separação entre homens de até 30 anos é de 19,8% (para mulheres nessa faixa etária é de 17,6%). Esses índices caem para 5% entre as pessoas com mais de 50

FAST-FOOD
18% dos casais terminam antes de completar cinco anos de casamento. Relacionamentos com mais de 20 anos têm índice de separação de 4%

REPETECO
A taxa de divórcio entre casais que experimentam o matrimônio pela primeira vez é de 10%. No segundo casamento, o índice sobe para 15% entre os homens e 17% entre as mulheres

ENSAIO
Casais que não dividiram o teto antes do matrimônio registram índice de divórcio de 7%. Quem morou junto antes de oficializar a relação se separa em 15% dos casos.

O estudo traz outros dados interessantes. Quanto maior a diferença de idade, maior a probabilidade de divórcio - a taxa de separação é de 9,5% entre casais com até quatro anos de diferença de idade. Quando a distância etária sobe para nove anos, o índice passa para 16,8%. A pesquisa coloca em xeque princípios da homogamia, a principal teoria sobre os relacionamentos a dois. Esta tese sustenta que homem e mulher se unem pelas semelhanças e não pelas diferenças. Porém, segundo a pesquisa, discrepâncias no nível educacional não interferem muito no sucesso do casamento. Se ambos possuem nível superior ou apenas um tem graduação, o percentual de separações é o mesmo, em torno de 11%.
Outra conclusão é que a religião ajuda a manter o relacionamento. Quando nem o homem nem a mulher são religiosos, a taxa de separação é de 13,6%. Se apenas um é, o índice cai dois pontos percentuais. E, se ambos professam sua fé, a taxa de divórcio diminui para 8,1%.

ESTILO DE VIDA

BRINDE
Pessoas que não bebem ou tomam, no máximo, dois drinques por noite registram uma taxa de separação de 8,9%. Entre os que costumam beber três doses ou mais, o índice sobe para 12% para os homens e 15% para as mulheres. Quando a mulher bebe mais do que o homem, é de 14%.

CHAMINÉ
A taxa de separação é menor em casais não fumantes (7,8%). E maior quando ele fuma e ela não (17,4%)

CRENÇA
No caso de pessoas que não dão importância para a prática religiosa, o índice de separação é de 12% entre os homens e 13% entre mulheres. Casais que valorizam a religião têm taxa de divórcio de 8,1%

CANUDO
9% das pessoas com pelo menos um diploma universitário se separam. A taxa de divórcio sobe para 11% no caso de quem não tem curso superior.

FILHOS

PRIMOGÊNITO
1/5 dos casais com filhos nascidos antes do casamento - seja de relacionamentos anteriores, seja da relação atual - termina a união

ESCADINHA
8% dos casais sem crianças se separam. A taxa sobe para 13% em relações com um filho e cai para 11% se existem duas ou mais crianças

FRALDA
O índice de separação entre pais com crianças menores de cinco anos é de 14%. O número cai para 7% se os filhos têm 15 anos ou mais.

SIM X NÃO
Homens e mulheres decididos a ter outro filho que não são correspondidos pelos parceiros têm taxa de divórcio de 13%

A médica Nayra Andrade Vasconcelos, 35 anos, e o engenheiro ambiental Wendell Carvalho, 32, são protestantes e acreditam que a religião os ajuda a superar os obstáculos do relacionamento. "Dentro de um lar cristão, a relação de um homem e uma mulher não é química, ela é cultivada no dia a dia", diz Nayra. "Sou submissa ao meu marido no sentido de ele ser o chefe do lar e eu, sua assistente. É uma relação de parceria e isso evita muitos conflitos." Eles também acreditam que o divino tem o poder de centrá-los em momentos de stress. "Não somos perfeitos e temos problemas como todos os casais.
A diferença está na maneira que lidamos com isso, diz Nayra. "Em três anos e meio de relacionamento, nunca gritamos um com o outro, nos desrespeitamos ou nos ofendemos."
No capítulo filhos, a pesquisa consegue mostrar qual o impacto que os rebentos gerados antes da união têm no casamento, bem como cruzar variáveis como número de crianças e a idade delas. A separação é mais frequente quando o casal tem apenas um filho ou a prole tem menos de cinco anos. "Muitos não suportam o grande teste da chegada do primeiro filho", endossa a psicóloga Andréa Soutto Mayor, doutora em psicologia experimental pela Universidade de São Paulo (USP). "O tempo dedicado ao outro é reduzido drasticamente e muitos maridos não conseguem lidar com o fato de ficarem de escanteio. Além disso, claro, há a diminuição da frequência sexual."